Com 80% das vagas concentradas na rede privada, país ocupa a segunda posição mundial em número de escolas médicas e poderá ultrapassar 1,2 milhão de médicos até 2030
O Brasil chega a 2026 diante de uma transformação sem precedentes na formação médica. De acordo com o levantamento consolidado mais recente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), o país alcançou 494 escolas médicas e 50.974 vagas anuais de graduação em Medicina, das quais aproximadamente 80% estão concentradas em instituições privadas.
O número coloca o Brasil na segunda posição mundial em quantidade de escolas médicas, atrás apenas da Índia — um país com população mais de seis vezes superior à brasileira.
A expansão representa um avanço expressivo na oferta de formação médica, mas também levanta questões fundamentais: o crescimento foi acompanhado pela ampliação dos campos de prática, hospitais de ensino, professores qualificados e vagas de residência médica? E, principalmente, a quantidade de novos cursos está sendo convertida em melhor assistência à população?
Essas perguntas tornam-se ainda mais importantes diante da velocidade com que novos cursos e vagas foram autorizados.
Brasil ganhou 77 novos cursos de Medicina em menos de dois anos
Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o Ministério da Educação autorizou a abertura de 77 novos cursos de Medicina, responsáveis pela criação de 4.412 vagas.
No mesmo período, outros 20 cursos que já estavam em funcionamento receberam autorização para ampliar suas turmas, acrescentando mais 1.049 vagas.
Ao todo, foram criadas 5.461 novas vagas de graduação em menos de dois anos.
Os dados foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação e analisados pelo grupo de pesquisa Demografia Médica no Brasil, coordenado pelo professor Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP.
O levantamento examinou 197 portarias publicadas no Diário Oficial da União, incluindo solicitações para abertura de cursos e ampliação de vagas. As informações também foram confrontadas com os registros do sistema e-MEC, base oficial do Ministério da Educação.
Segundo a FMUSP, o resultado foi a elevação do país à marca de 494 escolas médicas e mais de 50 mil vagas anuais.
Nordeste concentrou 43% das novas vagas
A expansão ocorreu em todas as regiões, mas não foi distribuída de maneira uniforme.
O Nordeste recebeu 2.365 novas vagas, correspondentes a 43% do total criado no período. Na sequência aparecem:
- Sudeste: 1.225 novas vagas;
- Norte: 835;
- Sul: 729;
- Centro-Oeste: 307.
Pará, Bahia e São Paulo lideraram a abertura de novos cursos, com oito autorizações em cada estado.
Entre as capitais, São Luís, no Maranhão, recebeu cinco novos cursos. Belém, Teresina e Boa Vista tiveram duas autorizações cada.
A expansão também alcançou municípios do interior, alguns deles contemplados com dois novos cursos simultaneamente, como Feira de Santana, Luís Eduardo Magalhães, Sobral, Tianguá, Cariacica, São Mateus, Ariquemes, Santarém e Joinville.
A interiorização pode contribuir para ampliar a presença de estudantes e profissionais fora dos grandes centros. Entretanto, a abertura de uma faculdade não garante, isoladamente, a permanência dos médicos na região.
Para que isso aconteça, são necessários hospitais estruturados, unidades de saúde preparadas, programas de residência, oportunidades profissionais e condições adequadas de trabalho.
Predomínio do ensino médico privado
Outro aspecto marcante é a crescente participação das instituições privadas. Atualmente, aproximadamente oito em cada dez vagas de Medicina são oferecidas pela rede particular.
O movimento é ainda mais intenso no estado de São Paulo. Depois da abertura de 40 cursos em uma década, o estado chegou a 87 escolas médicas em 2025. Aproximadamente 92% das vagas paulistas estão concentradas em instituições privadas.
A expansão consolidou a Medicina como um dos segmentos mais disputados e economicamente relevantes do ensino superior brasileiro.
Entretanto, pesquisadores e entidades médicas alertam que a autorização de novos cursos precisa considerar critérios técnicos, como:
- disponibilidade de hospitais de ensino;
- acesso dos estudantes a pacientes e cenários de prática;
- número e qualificação dos professores;
- estrutura laboratorial;
- integração com a atenção básica;
- oferta de internato supervisionado;
- capacidade regional de residência médica;
- indicadores de saúde e necessidade real de profissionais.
Sem esses elementos, o aumento do número de vagas pode não resultar na formação adequada dos futuros médicos.
Brasil poderá ultrapassar 1,2 milhão de médicos até 2030
Com a abertura de mais de 50 mil vagas anuais, o número de médicos deverá crescer de forma acelerada nos próximos anos.
As projeções indicam que o Brasil poderá ultrapassar 1,2 milhão de médicos até 2030, alcançando uma proporção superior a cinco profissionais por mil habitantes.
O aumento da oferta poderá ampliar o acesso à assistência, mas não resolverá automaticamente as desigualdades existentes no sistema de saúde.
O país ainda apresenta forte concentração de médicos nas capitais, regiões metropolitanas e municípios de maior renda. Cidades pequenas e localidades mais vulneráveis continuam enfrentando dificuldade para atrair e manter profissionais.
Enquanto municípios com mais de 500 mil habitantes apresentam aproximadamente 5,75 médicos por mil moradores, cidades com menos de cinco mil habitantes têm cerca de 0,51 médico por mil habitantes.
Portanto, o desafio brasileiro não está restrito ao número total de profissionais. Ele envolve também distribuição territorial, especialização, condições de trabalho e inserção no Sistema Único de Saúde.
Crescimento da graduação não é acompanhado pela residência médica
Um dos principais desequilíbrios está na diferença entre a quantidade de vagas de graduação e a oferta de residência médica.
A conclusão do curso permite que o profissional obtenha registro e exerça a Medicina como generalista. Entretanto, a formação de especialistas depende, na maioria das situações, do ingresso em um programa de residência ou da obtenção de título reconhecido.
Como a residência não cresceu na mesma velocidade das faculdades, milhares de recém-formados passam a disputar um número limitado de vagas.
Esse cenário contribui para o crescimento do número de médicos sem título de especialista, aumenta a concorrência nos processos seletivos e pode pressionar o mercado de plantões e serviços generalistas.
No estado de São Paulo, aproximadamente 40% dos médicos são generalistas, enquanto 60% possuem título de especialista. Apesar de ainda serem maioria, os especialistas estão crescendo em ritmo inferior ao dos profissionais sem especialização.
Para entidades médicas, o país precisa planejar conjuntamente graduação, residência, distribuição territorial e necessidades do SUS.
Avaliação da qualidade ganha importância nacional
Com quase 500 escolas médicas, tornou-se indispensável criar mecanismos consistentes para avaliar a qualidade da formação.
Nesse contexto, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o Enamed, passou a ocupar papel central no debate educacional.
A avaliação permite mensurar o desempenho dos estudantes e identificar diferenças entre cursos e instituições. Seus resultados podem auxiliar o Ministério da Educação na supervisão das escolas e orientar medidas de melhoria.
As novas Diretrizes Curriculares Nacionais de Medicina também reforçam a necessidade de avaliações periódicas, integração entre teoria e prática e acompanhamento das competências adquiridas antes e durante o internato.
No entanto, uma prova isolada não resolve todos os problemas. A qualidade da formação depende de um conjunto de fatores, incluindo estrutura institucional, corpo docente, supervisão clínica, segurança do paciente e exposição adequada aos diferentes níveis de atenção à saúde.
São Paulo poderá chegar a 340 mil médicos até 2035
O estado de São Paulo ajuda a dimensionar a velocidade dessa transformação.
Ao final de 2025, o estado contava com aproximadamente 197 mil médicos. A projeção é que o número ultrapasse 235 mil em 2030 e alcance cerca de 340 mil profissionais em 2035.
A proporção poderá passar de quatro médicos por mil habitantes, em 2025, para sete por mil em 2035.
Mesmo com essa expansão, a desigualdade regional deverá permanecer. Ribeirão Preto, por exemplo, apresenta proporção de médicos muito superior à observada na região de Registro.
O dado mostra que o crescimento quantitativo precisa ser acompanhado por políticas de distribuição e fixação dos profissionais.
Mulheres e jovens transformam o perfil da Medicina
A profissão médica também está se tornando mais feminina e mais jovem.
Em São Paulo, as mulheres já representam aproximadamente 52% dos médicos. A projeção indica que poderão corresponder a 70% da população médica estadual na próxima década.
Elas já são maioria em diversas especialidades, principalmente Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia e Medicina de Família e Comunidade.
Ao mesmo tempo, mais de um terço dos profissionais paulistas tem 35 anos ou menos. Essa renovação modifica relações de trabalho, escolhas de especialidade, modelos de carreira e expectativas sobre qualidade de vida.
A feminização da Medicina também reforça a necessidade de combater desigualdades de remuneração e ampliar a presença feminina em cargos de liderança, gestão, docência e pesquisa.
Formação médica não termina com a graduação
O envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas e a incorporação de novas tecnologias tornam indispensável a atualização permanente.
O médico formado em 2026 trabalhará em um ambiente marcado por inteligência artificial, telemedicina, medicina de precisão, análise de dados, simulação clínica e novas formas de relacionamento com os pacientes.
Nesse cenário, o diploma representa apenas o início da formação profissional.
Países como Canadá, Austrália e Reino Unido mantêm programas estruturados de desenvolvimento profissional contínuo, com atividades educacionais, avaliação de desempenho, auditoria clínica e documentação periódica da aprendizagem.
No Brasil, ainda não existe um sistema nacional obrigatório e uniforme de atualização para todos os profissionais de saúde. O fortalecimento de políticas de educação permanente será essencial para assegurar qualidade assistencial ao longo de toda a carreira.
O grande desafio de 2026: transformar quantidade em qualidade
O Brasil inicia 2026 com 494 escolas médicas, mais de 50 mil vagas anuais e uma das maiores estruturas de formação médica do mundo.
O crescimento pode ampliar a disponibilidade de profissionais e contribuir para melhorar o acesso à saúde. Entretanto, a expansão também impõe riscos quando ocorre sem planejamento, fiscalização e estrutura assistencial compatível.
O país precisará enfrentar simultaneamente cinco grandes desafios:
- assegurar qualidade mínima em todas as escolas médicas;
- ampliar as vagas de residência e especialização;
- distribuir melhor os médicos pelo território nacional;
- fortalecer a integração dos cursos com o SUS;
- implementar políticas permanentes de atualização e avaliação profissional.
A discussão, portanto, não deve se limitar à pergunta “quantos médicos o Brasil forma?”, mas avançar para questões mais decisivas: como esses médicos estão sendo formados, onde irão trabalhar e quais condições terão para cuidar da população?
A expansão das faculdades de Medicina já é uma realidade. O próximo passo é garantir que o crescimento numérico seja acompanhado por qualidade acadêmica, responsabilidade social e segurança para os pacientes.
